sábado, 20 de abril de 2013

FUNÇÕES DA LITERATURA



FUNÇÕES DA LITERATURA

As obras literárias carregam dentro de si uma riqueza tal que enriquece a quem as manuseia ou lê.

No seu livro Poética, Aristóteles dá a entender que a literatura tem três funções: a cognitiva, a estética e a catártica. Outros estudiosos acrescentaram uma quarta função: a político-social.

FUNÇÃO COGNITIVA

A função cognitiva se refere à aquisição do conhecimento. Em Literatura, o escritor tem uma percepção (conhecimento) pessoal da realidade que o rodeia. A essa percepção costuma-se chamar de inspiração, estalo, insight… Impulsionado por esse estímulo, ele (o escritor) produz textos que comunicam esse conhecimento ou percepção, onde sentimento e razão se fundem. A obra literária, por conseguinte, exprime esse seu conhecimento intuitivo e estético a respeito da realida que o rodeia.

No texto abaixo, Dois e dois: quatro, de Ferreira Gullar, o poeta revela seu conhecimento sobre a vida, que apesar de expressar uma percepção bem pessoal, acaba apresentando aquilo que a maioria das pessoas percebem da vida.

Dois e dois: quatro

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena.
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
Como é azul o oceano
E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Meso que o pão seja caro
E a liberdade pequena.

É isso que faz com que um texto se torne uma obra-prima, pois o poeta não usa argumentos científicos ou filosóficos para comunicar o que pensa. Se vale da sua experiência e da sua sensibilidade, utilizando os princípios da métrica.

FUNÇÃO ESTÉTICA

Por ser a Literatura uma arte, ela nos remete à nossa capacidade de apreciar o belo, o bonito, ao prazer que sentimos diante das coisas agradáveis, que tocam os nossos sentidos, as nossas emoções, o nosso intelecto.

No caso da Literatura, isso se relaciona ao emprego adequado da metrificação, do ritmo, da rima, das figuras de linguagem, da articulação dos personagens, da estruturação do enredo, entre outros elementos.

Olavo Bilac, um dos poetas brasileiros que mais se esmerou em utilizar uma perfeita técnica na arte literária, expressou seu ideal de escritor no poema Profissão de Fé, onde ele compara o trabalho do poeta ao artesanato de um ourives na produção de uma jóia.

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena como em prata firme
Corre o cinzel.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase: e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina
Dobrada ao jeito
Do ourives saia da oficina
Sem defeito:
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!

FUNÇÃO CATÁRTICA

A palavra catártica vem de catarse (do grego catharse), que significa purificação, purgação. Foi usada por Aristóteles ao afirmar que as tragédias (representações teatrais) purificam as emoções.

Em Literatura, podemos entender que a catarse é uma espécie de descarga emocional que provoca no leitor ou no escritor um certo alívio da tensão ou da ansiedade psicológica ou moral.

Ao vivenciar as emoções e tensões transmitidas pelos personagens das narrativas (seja da prosa ou da poesia), o leitor ou o escritor estaria descarregando sua próprias tensões, medos, frustrações e assim se libertando (purificando) dessas emoções negativas.

No caso do escritor, o ato de escrever pode se constituir em uma catarse, porque muitas vezes, ele escreve para desabafar, pôr para fora suas tensões e sublimar suas frustrações.

Portanto, a Literatura, ao provocar essa sensação de alívio emocional e purificação moral está desempenhando sua função catártica.

Manoel Bandeira, poeta brasileiro, confessa que foi nessas condições de tensão que escreveu seu famoso poema Vou-me embora pra Pasárgada:

Vou-me embora pra Pasárgada foi o poema de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego (…). Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas” ou “tesouro dos persas” suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias (…). Mais de vinte anos depois, quando eu morava só, na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo de doença, saltou-me, de súbito, do subconsciente, esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!” Senti na redondilha, a primeira célula de um poema e tentei realizá-lo, mas fracassei. (…). Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu o mesmo desafio de evasão da “vida besta”. Desta vez o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida; e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa da minha adolescência – essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar. Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí, e “não como forma imperfeita neste mundo de aparências”, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim a “minha Pasárgada”.
Vamos ao poema:

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana, a Louca, da Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei em pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
mais triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Vou-me embora pra Pasárgada
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

FUNÇÃO POLÍTICO-SOCIAL

A obra literária também serve de instrumento de conscientização das pessoas e de transformação da sociedade. Por isso, a Literatura atua como um agente de participação nos movimentos e lutas sociais de uma época e de um povo nos quais o escritor se acha inserido. Muitos chamam a isso de “literatura engajada”.
São exemplos de obras  com essa função político-social:
  • o poema O Navio Negreiro, de Castro Alves, denunciando a escravidão e incitando o povo a acabar com ela;
  • o romance O Cortiço, de Aluiso Azevedo, apontando a miséria material e moral dos moradores desse tipo de habitação;
  • o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, denunciando  a vida sofrida do sertanejo e a exploração do seu trabalho pelos donos de terras no Nordeste Brasileiro.
Com o advento da Sétima Arte (o cinema) várias obras literárias ganharam cor, forma e imagem nas telas dos cinemas, como foi o caso de “Morte e Vida Severina”. Abaixo apresentamos um trecho desse poema que foi musicado por Chico Buarque e encenado no Teatro da Universidade Católica de  São Paulo, na década de 60.

Morte e Vida Severina

(No trecho, o retirante Severino assiste ao enterro de um trabalhador de uma plantação de cana e ouve o que dizem os amigos do morto que o levaram ao cemitério):
- Essa cova em que estás,                    – É uma cova grande
com palmos medida,                            para teu defunto parco
é a conta menor                                   porém mais que no mundo
que tiraste da vida.                              te sentirás largo,
- É de bom tamanho,                           - É uma cova grande
nem largo, nem fundo,                         para tua carne pouca,
é a parte que te cabe                            mas a terra dada
deste latifúndio.                                    não se abre a boca,
- Não é cova grande,                            – Viverás, e para sempre
é cova medida,                                      na terra que aqui aforas:
é a terra que querias                              e terás enfim tua roça.
ver dividida.                                          – Aí ficarás para sempre,
- É uma cova grande                             livre do sol e da chuva,
para teu pouco defunto,                        criando tuas saúvas.
mas estarás mais ancho                         – Agora trabalharás
que estavas no mundo.                          só para ti, não a meias
como antes em terra alheia.
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EXERCÍCIO:

Agora vamos ver se você compreendeu o assunto.

Leia atentamente os textos a seguir. Analise-os sob o ponto de vista das funções literárias estudadas e indique que função eles manifestam. O mesmo texto pode apresentar uma ou mais funções, mas aponte a que mais se destaca.

Texto 1  
O operário em construção (Vinícius de Moraes)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
Da sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- garrafa, prato, facão
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele operário humilde
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitara.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve num segundo a impressão
De que não havia o mundo
Coisa que fosse mais bela
(…)

TEXTO 2     
A UM POETA (Olavo Bilac)

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

TEXTO 3   
SE EU MORRESSE AMANHÃ! (Álvares de Azevedo)

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria,
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas,
Se eu morresse amanhã!
Que sol! Que céu azul! Que doce n’alva
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia da glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos,
Se eu morresse amanhã!

LINGUAGEM E LITERATURA



Linguagem Literária e Não Literária


A linguagem literária é caracterizada por sua plurissignificação, cuja base é a conotação, é utilizada muitas vezes com um sentido diferente daquele que lhe é comum. Podemos citar como exemplos de textos literários:

  • o conto, o poema, o romance, peças de teatro, novelas, crônicas.

A linguagem não literária é a utilizada com o seu sentido comum, empregada denotativamente, é a linguagem dos textos: 

  • informativos, jornalísticos, científicos, receitas culinárias, manuais de instrução etc.



                             O QUE É LITERATURA?


Literatura é a arte de compor escritos artísticos, em prosa ou em verso, de acordo com princípios teóricos e práticos, o exercício dessa arte ou da eloquência é poesia.

"A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio." (COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. 2. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. p. 9-10)

Segundo José de Nicola (1998:24), o que torna um texto literário é a função poética da linguagem que “ocorre quando a intenção do emissor está voltada para a própria mensagem, com as palavras carregadas de significado.” Além disso, Nicola enfatiza que não apenas o aspecto formal é significativo na composição de uma obra literária, como também o seu conteúdo.